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Luxúria: O vício que virou mérito

Não raro você vê um vídeo de alguma mina pelada ou pagando um boquetão pra algum mané que chegou à conclusão que todas as pessoas do planeta mereciam ver suas práticas sexuais. Aparentemente as pessoas usam a estupidez como parâmetro pra se relacionarem: estúpidos amam estúpidos. 



Mas é difícil ver na internet algo que não associe a prática de expôr a pobre e imbecil menina (que viu no ato de registrar em vídeo sua língua passando em um pinto uma boa ideia) com o machismo. Nesse ponto de vista, existe um conluio de uma seita machista cuja principal missão é humilhar mulheres, seja ela quem for. Ao analisar essa ideia em seu produto bruto final, fica difícil de engolir. Existiria algum motivo que possa explicar melhor o que leva um delinquente a mostrar pro mundo um vídeo sobre o hábito mais comum e antigo da humanidade, que é transar? Creio que a explicação esteja na luxúria.

Se eu não me engano, o conceito dos famosos 7 pecados capitais tomou uma forma empírica com os estudos de Tomás de Aquino, que viveu entre 1224 até 1274, ao retomar o estudo de alguns caras que se dedicaram a fazer uma lista dos males da alma (tendo seu início com o monge Evágrio Pôntico, o cara que trouxe pro ocidente essa história de pecados capitais).

Se engana quem acha que pecados dizem respeito só a dogmas ou entidades. Os pecados dizem respeito aos nossos erros, nossos vícios, a hýbris. Ou seja, pecados são uma compilação de maus hábitos que exercem uma influência invisível em nós, ou no nosso espírito, como preferir. Chame do que quiser.

Mas o que são vícios e por que a luxúria é um vício? Um especialista nesses estudos chamado Jean Lauand diz que o vício “compromete muitos aspectos da conduta; é uma restrição à autêntica liberdade e um condicionamento para agir mal”. Já a psicanalista C. G. Jung diz que “Na raiz de um complexo encontra-se um conteúdo com ênfase no sentimento, e cuja menção desperta em nós emoções violentas, mas que nós reprimimos da nossa consciência. Um complexo leva-nos a ‘um estado de falta de liberdade, a pensarmos e a agirmos compulsivamente’

Em certo estágio, essas compulsões e complexos saem da barreira do inconsciente, daquelas vozes que você silencia quando tem algo te incomodando, sabe? Bom, aí essa compulsão domina o seu ego, o seu eu. Aí já não é o "demônio" que tem um "demônio" em você, é você que tem um "demônio" (dá pra aprender muita coisa legal com estudos religiosos, qualquer hora falo mais disso).

Resumindo: o pecado é tudo aquilo que compromete sua conduta e seu bem-estar físico e psíquico, tanto nosso quanto o que nos cercam. É como se fosse uma doença espiritual, um vírus no código que te rege. Vamos entender como o "vírus" da luxúria funciona e porque isso faz com que imbecis mostrem pra todo mundo o vídeo de uma menina pelada chupando seu pau.

Platão divide a alma em três partes: O epitimético, o thymós, e o nôus. Esse último se refere ao espírito e corresponde aos vícios da inveja e da soberba. O thymós, ligado ao sentido emocional do coração, comporta os vícios da ira e da preguiça. Mas é no epitimético que encontramoso que queremos: Ligado aos instintos mais primitivos, suas fraquezas são a gula, a avareza e a luxúria.

Esses vícios são chamados de demoníacos e "capitais" porque eles são uma espécie de semente poderosíssima que desencadeia uma série de outros complexos e compulsões, que, se não tratados, aumentam de número exponencialmente, formando um exército de cagadas na sua vida. Mas antes de irmos mais fundo na luxúria, analise o seguinte caso, muito comum (vou falar no caso dos homens, já que é impossível eu ter presenciado uma conversa que mulheres só têm com mulheres, afinal, sou homem, mas sei que algo semelhante ocorre).

Você e seu grupinho de amigos estão andando na rua conversando sobre abobrinhas quando uma gostosa passa por vocês. Logo um deles diz "nossa que gostosa" e outro "hmmm imagina ela de quatro" e por aí vai. Perceba que não fazemos isso com frangos assados, por exemplo, ao passarmos por aquela máquina que faz os cadáveres apetitosos ficarem girando. Ninguém diz "nossa olha esse frango imagina eu passando minha língua nele meus dedos todos engordurados". Note também que, ao usar o exemplo bizarro do frango assado, fica mais fácil de denotar uma compulsão. Por que raios esse anseio em comer frango assado parece tirar totalmente minha racionalidade? Volte pro caso da gostosa. 

Acontece que todo vício faz com que você abandone totalmente a racionalidade quando você deseja. O cara viciado em cocaína, quando quer a droga, só consegue pensar em cocaína, e no que vai fazer quando cheirar a cocaína, e como ele vai se sentir quando ele cheirar a cocaína. Agora, o cara que quer cocaína e não tem cocaína, e sabe que não vai ter cocaína, sabemos muito bem, não consegue lidar com o fato de não ter cocaína.

Ou ele começa a roubar, ou a quebrar tudo em casa, entre outras cagadas. Podemos concluir que todo vício faz com que certos hábitos tenham seus objetivos em si mesmo. Você não cheira mais cocaína porque quer sentir o efeito prazeroso dela, ou pra curar uma bebedeira no meio da balada: você usa pela cocaína em si. A cocaína pela cocaína.

O sexo pelo sexo.

É fato que o grupo de amigos mencionado ali em cima, que conversavam sobre abobrinhas, expressaram seu interesse, com detalhes incríveis, na gostosa que ali transitava pra mostrar "olha, eu sinto desejo sexual, eu sou alguém". Seria uma auto-afirmação. Existem aqueles, raros, que nem ligam pra sexo, e o seu vício está em se auto-afirmar, e ao saber da existência de algo que te premia na luxúria, escolheram esse campo pra sua auto-afirmação. Mas na maioria das vezes essa auto-afirmação é decorrência de outra coisa, do vício da luxúria.

O motivo pelo qual um cara faz questão de explicitar seu interesse na gostosa é o mesmo motivo pelo qual ele viola 400 mil princípios morais básicos ao expôr uma mulher em um vídeo solto na internet. A luxúria é o mais sedutor dos vícios, porque tem o seu ápice no prazer sexual, mas de forma desmedida e despudorada. O que importa é transar, o sucesso é meter, não importa com quem, quando, como e onde. É o que leva pessoas planejarem seu sucesso empresarial pra ter carros e iates, porque "imagina quanta mina ia pagar pau pra você? Ia ser facinho comer". O objetivo é o sexo, a finalidade de tudo é essa. O vício pelo sexo é igual o da cocaína: A pessoa acaba abdicando de muitas coisas que em situações normais, na plenitude das faculdades mentais, qualquer pessoa diria "isso é loucura, tenho 300 reais na conta, não vou gastar 200 nesse combo de Red Label na baladinha da cidade só pra arranjar umas bucetinhas". Mas o vicio da luxúria faz isso ter todo um sentido, toda uma razão intrínseca ao ato que faz isso parecer a coisa mais óbvia a se fazer.

O demônio da Luxúria (Asmodeus) ama a pornografia e nos força a desejar outros corpos: “Ele ataca cruelmente (...) enlameia a alma e a seduz a ações vergonhosas (...). O demônio da luxúria trabalha, sobretudo através da fantasia, que ele enche de imagens e de pensamentos impuros, desta maneira obscurecendo a razão”, diz o teólogo Anselm Grün. 

A luxúria atualmente é o pecado mais comum, de forma tão surpreendente que não é mais o ponto preto no cenário branco, e sim o cenário branco. Ele se tornou o pano de fundo da alma de muitos homens, que acham que a finalidade de tudo é o sexo em si. Mas mesmo assim, sabemos definir o sexo? O que é sexo?

O sexo que visa apenas o prazer não é sexo no sentido pleno da palavra, e sim uma imitação do sexo. Digamos que o sexo com camisinha seria uma masturbação a dois. É apenas uma coisa que fazemos com outra pra sentirmos prazer com o objetivo último de atingir a sensação orgásmica. O sexo é o que fazemos pra reproduzir, e tem algo de cosmobiológico, já que meu DNA entra no seu DNA e vice-versa, transformando pra sempre o que você é, fisicamente, psicologicamente e espiritualmente. O sexo de prazer é apenas uma brincadeira que usa o ato sexual como pretexto pro prazer, e não o prazer nervoso sensorial como uma consequência do sexo. 

Mas é claro que quem tem o vício da luxúria (muito provavelmente você tem, em maior ou menor grau) faz ideia disso. E é até repulsivo pensar que pode existir algo maior do que o sexo que sempre fez, já que seria um abalo admitir que aquilo que você tinha como finalidade última é uma puta babaquice. O viciado em luxúria acha que o sexo traz o sucesso consigo, e no momento da transa só consegue pensar em gozar, levantar na hora e ligar pros amigos relatando o ocorrido. Esse hábito faz com que o cara desconsidere totalmente a condição da parceira sexual como pessoa, um humano que tem como finalidade a própria humanidade. Ele a vê como um trampolim social, uma ferramenta que faz com que o real prazer esteja em mostrar para o mundo seu sucesso, afinal, atingiu sua finalidade última. 

Sabemos também que, tirando os casos de milionários do poker, por exemplo, ninguém transa toda hora com trilhões de parceiras. Ou seja, assim como no vício em cocaína, ou em frangos assados, a escassez do ato causador do vício provoca paranoias, complexos, baixa auto-estima, etc, levando a outra conclusão, que podemos ver nos "fracassados": Estes, envoltos no complexo social da luxúria (que a partir do momento que começou a vigorar como código único do sucesso entre muitos deixou de ser apenas algo individual) aparecem em cantos da internet desesperados pra sair da "friendzone" ou pra saber qual é a melhor postura pra atrair fêmeas em baladas. Chegam até a frequentar cursos e palestras de imbecis que se dizem "mestres da pegação": Sociopatas que querem induzir mulheres a chuparem seus pintos pra satisfazerem seus complexos por meios manipuladores. 

Isso tudo só pra explicitar quais complexos a luxúria traz consigo: Chamar todo mundo do chat, aquele "oi tudo bem" pra você tentar traçar alguém, favoritar foto de mina gostosa no twitter, ficar musculoso só pra transar, comprar combos de red label pra chamar atenção ou achar que é só xingar porque mulher gosta de ser tratada mal.

É claro que transas de uma noite só não configuram por si a luxúria. Eu posso amar alguém só por uma noite. Eu posso ser verdadeiro e querer algo mais de alguém, mesmo que seja por uma noite, e transar me entregando totalmente pra outra pessoa, sem os receios imbecis, aquele sexo falso que você fica pensando em escalações de times pra não gozar rápido. É possível sim. A luxúria só leva esse nome quando entra em um ciclo infinito de sexo pelo sexo, uma loucura.

Portanto, pense bem antes de culpar a cultura machista pelas mulheres expostas na internet. A existência de um movimento machista depende de pessoas que pensam que mulheres são inferiores, e de uma organização política pra que esse movimento marche em conjunto. Estas pessoas, doentes, não são capazes de se organizar, e muito menos de pensar.

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