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Finis - Qual é o seu sentido?

Finis, em latim, significa tanto fim quanto meta. Se enquanto é comum pensar  de que o fim é o fator que determina o tempo que temos pra realizar tal meta, a verdade é que a realização da meta é o próprio fim, afinal, significam a mesma coisa. Ao colocar o fim como o obstáculo intransponível que aniquilará qualquer chance de alcançarmos nossa meta ao chegarmos nele, automaticamente passamos a ser guiados pelo presente, vivendo o clássico "um dia após o outro", à deriva, se deixando levar pelas coisas aleatórias que implicam na nossa vida, negativa e positivamente. 



Por quê? Porque quando não somos nós que estabelecemos um fim para nós mesmos, não somos nós também, por consequência, que estabelecemos um sentido pra nós mesmos.  O ser humano que não consegue ver um fim em sua tarefa, a meta dela, também não consegue enxergar sentido nenhum pra essa tarefa, já que uma tarefa sem meta não tem sentido. No entanto, não é algo simples, enquanto você não percebe a sua capacidade de definir uma tarefa, um propósito, pra si mesmo. 

Normalmente enxergamos a necessidade de fazer coisas, mas não vontade. Isso acontece em pessoas que não perceberam a capacidade delas de se darem propósito, de se darem sentido, de saber que quem dá sentido pra você é você mesmo. Mas não é isso que se deve buscar perceber. Isso se torna auto-evidente quando você percebe uma coisa: O seu eu. O seu ser. A sua existência. Essa coisa metafísica que percorre seu cérebro e seu corpo. SEU cérebro, SEU corpo, que pertence a algo. Algo que não é nem cérebro, e nem corpo. Esse é você. 

Enquanto a pessoa não percebe isso, tampouco é capaz de perceber a condição de TER um cérebro e TER um corpo, e não simplesmente ser um espectador do que o cérebro e o corpo querem. Justamente por aceitarem essa condição de ser um escravo das pulsões do corpo e do cérebro, e mais: da sociedade, dos pais e de sei lá quem, é que a pessoa não enxerga vontade própria. A vida amorosa de alguém assim, por exemplo, se resume a pulsões, a instintos: Meu parceiro será aquele que instiga frios na barriga, aceleramentos cardíacos e desejo sexual. Afinal, se ela não percebe o "eu" dela mesma, também não percebe o das outras pessoas, não tendo forma assim de desejar esse eu, de sentir a sintonia perfeita do eu em outro: amar. A pessoa que se guia pela paixão não é capaz (gosto de acreditar que AINDA não é capaz) de amar, porque não consegue enxergar o item fundamental pra que se possa haver amor, que é o seu próprio eu, e por consequência, o "você", o eu das outras pessoas. 

Ainda seguindo a série de conclusões que podem ser retiradas da percepção do próprio eu, podemos afirmar o seguinte: a pessoa que não percebe o próprio eu não é capaz de dizer a verdade. Afinal, a semente de todos os seus pensamentos são uma mentira. Todos nós somos totalmente livres pra tomar decisões, e totalmente responsáveis pelas nossas decisões. A pessoa que não percebe o próprio eu precisa fincar o pé em algum lugar, ter um chão pra pisar. Mas quando o chão não é ela mesma, já que ela não é capaz de perceber o eu, ela precisa criar um chão. E a partir do momento que o nosso ponto de partida, o algorítmo que irá estar presente em todas as nossas decisões e na nossa personalidade, é algo que não existe e a nossa vida é totalmente uma mentira. 

Um pensamento extremamente presente nas pessoas incapazes ainda de perceber o próprio eu é ver a bondade e a maldade como conceitos relativos, ou seja, que eu só posso saber o que é bom e o que é mau comparando o ato com outro, e medindo, seja lá qual for a escala comparativa, pra decidir o que é algo mais bom ou menos bom. Caso você pense assim, tenho uma boa notícia: o bem e o mal são coisas absolutas. Todas as coisas boas que você faz, não importa se seja bom pra uma pessoa, ou pra 6 bilhões de pessoas, são absolutamente boas, e o contrário também vale. Pra você entender melhor, deve saber como o bem e o mal se comportam, e já adianto, não é como nos filmes, onde o mal se veste de preto e dá risadas de escárnio toda vez que faz alguém sentir dor. 

Veja, enquanto decidir ser bom é algo que exige esforço pra cada vez que você "sobe" um nível de bondade, ou seja, aprofunda a bondade, a maldade é simplesmente a ausência de bondade, e por isso não necessita de esforço. Assim como a luz e a escuridão: Sem luz, o que sobre é a escuridão, mas a escuridão é algo que realmente existe, ou é apenas a ausência de luz? Existe como eu fabricar escuridão sem ser impedindo que a luz alcance certo lugar? Vamos à outra conclusão sobre as pessoas que não percebem o próprio eu: além de mentirem pra si mesmas e pros outros, elas não são capazes de ser boas. Nem pra si mesmas, e nem pros outros. Você pode argumentar que uma pessoa mentirosa e má dê esmola pra um mendigo só pra parecer bem na foto, mas mesmo assim fez o bem pro mendigo. Nesses casos, eu agradeço ao acaso, não à pessoa. 

Mas o seu nariz ainda está torto pra isso: quer dizer que se eu não percebo o meu eu, eu obrigatoriamente sou ruim e mentiroso? Isso se deve ao fato de que você pensa que a pessoa má sabe que está sendo má, e que a pessoa mentirosa tem a plena consciência de sua mentira. Veja só: Assim como a escuridão é simplesmente a ausência de luz, e a maldade é simplesmente a ausência de bondade, a mentira é a ausência de verdade. A pessoa que não sabe dizer a verdade nunca a viu, a pessoa que não sabe ser boa nem concebe a possibilidade dessa bondade. A bondade e a verdade transcendem ela, vão para a além de tudo o que compõe o eu dela, porque mesmo ela não percebendo esse eu, ele ainda continua existindo. Encubado, atrofiado e embaçado, mas existe. A mentira não é planejada pelo seu eu, ela é um impulso, algo que você só pode se arrepender (você nunca se pegou pensando, antes de dormir, por que raios você mentiu sobre tal coisa, e ao pensar isso, sentiu certo peso? Você, nesses casos, pode muito bem se sentenciar, se humilhar, e assim, encontrar a direção pra mais um passo no caminho da bondade).

Preste atenção como todos esses itens se conectam: Luz - escuridão. Bondade - maldade. Verdade - mentira. Acho que você já conseguiu prever a próxima conclusão. A verdade é absoluta. Outro pensamento extremamente comum em pessoas que não percebem o próprio eu é que "cada um tem a sua própria verdade". Precisamos entender então, já que eu aponto uma confusão pro entendimento geral disso, como nós enxergamos o mundo.

Imagine um círculo. Se todos os humanos desaparecessem nesse momento da Terra, inclusive você, o círculo continuaria sendo um círculo e as pedras continuariam sendo pedras. Ninguém tem a sua própria verdade. O que temos, de fato, é um entendimento individual da verdade, que difere de pessoa pra pessoa. A verdade está aí, e sempre estará, única e absoluta, e nós só percebemos ela. Cada um tem uma peça do quebra-cabeça. Conforme o tempo passa, e as coisas se provam verdadeiras devido a junção de peças do quebra-cabeça que se dá quando interagimos indivíduo pra indivíduo, grupo pra grupo e sociedade pra sociedade, todos nós vamos tendo certa parte desse quebra-cabeça montada, mas igual. Um cavalo é um cavalo pra mim e pra você, embora alguns tenham um conhecimento muito mais profundo do cavalo do que nós dois, sabendo tudo sobre sua anatomia e psicologia. 

Mas nós não somos verdade ou maldade, nós não somos verdade ou mentira. Nós simplesmente somos. E esse ser percorre um campo, um campo onde, em algum lugar, se encontra a verdade e se encontra a bondade. Porém, existe um terceiro fator que precisa se aliar a esses dois pra que você possa começar a perceber o seu eu: a beleza.

Não diferente dos outros fatores apresentados aqui, ela se comporta da mesma maneira:  a feiúra, o grotesco, é simplesmente a ausência de beleza. A beleza em si também só pode ser percebida,  e quando você é belo ou verdadeiro ou bom, você apenas está respeitando a beleza, a verdade e a bondade, porque você as encontrou, e a partir de encontradas, não faz mais sentido algum não ser bom, ou não ser belo, ou não ser verdadeiro. A mentira, a feiúra e a maldade são o vácuo, o nada, a ausência de ser, assim como o espaço é pra matéria. Veja, de nada adianta a luz, se não houver matéria pra ser iluminada. A luz no vácuo permanece escura. A verdade, a beleza e a bondade não são coisas, são exatamente a luz que ilumina as coisas, e faz com que você perceba cada vez mais as coisas como elas realmente são. Só o bom pode perceber o mau, enquanto o contrário não acontece. O mau se enxerga como a própria beleza, a própria bondade e a própria verdade. Os maiores genocidas se enxergavam como salvadores da humanidade, bons, belos e verdadeiros. 

Você é algo que percorre esse campo metafísico, e sim, se decide pra onde ir. Se você não vê sentido nas coisas, é porque não está se dando o direito de se dar sentido, e perdendo toda a magia da coisa. Não há necessidade de responder "quem é você". Você é. Não dá pra negar. 

Enquanto isso, você pergunta pro vazio qual é o seu sentido, sendo que quem deve responder essa pergunta é você, e só você. E aí, qual é o seu sentido?

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