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As tristezas e alegrias dos 3 tipos de churrasco com muita gente

Um hábito cultural um tanto disseminado são os churrascos. Comprar um monte de carne, cerveja, Coca de 2 litros, mulher fazendo maionese, ninguém comendo a maionese, maionese nos próximos 80 dias na casa do anfitrião...mas iremos mais fundo. Vamos fazer uma viagem por todas as nuances de um churrasco.


Poupe seus comentários sobre minha habilidade artística. A ocasião pode ser qualquer uma. Aniversário de alguém, jogo de futebol importante, Feriado, Domingo com Sol, Tédio. O que importa é algum pai de família (não o do pornô) resolver chamar todos os outros pais de famílias (não o do pornô) pra comprar carne, trazer suas mulheres e filhos, e ficarem por algumas horas sentados numa cadeira de plástico na parte do quintal onde ficam um monte de quinquilharias. Ele então entra no ZAPZAP e fala "CHURRASCO NA DOMINGUERA????"

Logo os outros pais de família (nenhum deles é o do pornô) falam "OPA" "BORA" "ISSO" ou emitem um grunhido "OOOHNA". Pode ser também que seja a turma do trabalho, mas funciona do mesmo jeito. A coisa está feita, e as engrenagens começam a girar.

Outra possibilidade é a de que o churrasco seja entre amigos. A ideia começa no Whatsapp em tal grupo de homens, e um deles já ressalta: "TEM QUE TER UMAS BUCETA". Outro já responde, "VOCÊ ARRANJA AS BUCETA NÉ ALBERTO". O Alberto, pra não se sentir ridicularizado diz "ARRANJO SIM". Arranja nada, mas começa aí o churrasco entre amigos.


Agora a primeira coisa é decidir onde será o churrasco. Um grupo no Whatsapp é feito, e o foco toda hora é desviado por conta de pessoas que insistem em mandar imagens mal feitas com piadas ruins, seguidos de diversos "kkkkkkkk" e emojis chorando de rir. As piadas também precisam ser velhas, ou o churrasco não vai acontecer.

O primeiro item da lista de organização é a casa onde o churrasco será feito. A casa escolhida é a de quem chega mais próximo de ter uma churrasqueira feita de tijolos e uma piscina, embora algum pobre insista que a casa dele na puta que pariu, numa estradinha de Terra, com churrasqueira improvisada em placas de alumínio e 45 cachorros seja o lugar ideal. "Pode fazer tudo lá".

Logo depois, é necessário decidir como evento será custeado. As possibilidades mais levantadas são 1) Um preço fixo: 50 reais cada um; 2) Cada um leva uma carne e um engradado de cerveja; 3) Todo mundo ir junto no mercado e "lá a gente vê" (essa possibilidade é levantada pelo pobre dos 45 cachorros). A 3ª opção é elegantemente ignorada pelos demais participantes da organização do churrasco, já que não tem substância. A primeira opção parece ser a melhor, mas logo é rejeitada porque não se sabe aí a proporção de carne e cerveja. Na maioria das vezes escolhem a segunda.

Perfeito. A melhor casa já foi escolhida e o método de compra das carnes e cervejas também. 


O dia começa cedo. Na verdade ele começa meia-noite se você for desses chatos zé-literais que falam "já é amanhã" depois que você se refere ao amanhã depois da meia-noite. Na casa do cara dos 46 cachorros, ele começa a preparar o vinagrete. Na casa de um casal almofadinha, a maionese começa a ser feita. Alguém diz que sabe fazer um negócio de alho pra passar no pão que fica igualzinho o pão de alho do mercado e que vai levar. 

As primeiras pessoas começam a chegar na casa, trazendo cervejas normais e carnes normais (1kg de maminha/alcatra). Algum filho da puta traz asinha de frango. O pobre do vinagrete chega, coloca a Bavária discretamente no freezer e já aproveita pra abrir uma Budweiser.

Alguém que se faz de entendido começa a "mandar" no churrasco, dizendo como as carnes devem ser temperadas, como devem ser colocadas no fogo, cortadas, técnicas especiais milenares de enfiar o alho na carne e jogar uma cerveja em cima ou qualquer truque que não afeta em anda o gosto da carne. Essa pessoa é condenada a ficar por quase todo o evento na frente da churrasqueira, suando, cuidando e cortando a carne para todos.

Caso tenha piscina, muitos entram e tratam logo de sair encharcados pra pegar pedaços de carne com a mão, assim que saia alguma coisa. Normalmente a primeira coisa a sair é a linguiça. O técnico das carnes nos ensina, do alto de sua sabedoria, como é importante furar a linguiça com o garfo. As pessoas da piscina molham toda a carne, e ninguém fala nada pra não ser inconveniente, embora a inconveniência no caso seja de mãos molhadas.

Em uma festa entre amigos é comum que, na piscina, alguns retardados insistam em brincadeiras físicas com as mulheres que resolveram comparecer ao evento apenas para publicar fotos suas de biquini na piscina com a legenda "churras no findi top". Seja lá o que isso signifique, é isso o que elas fazem. O fracasso pode acontecer e nenhuma mulher aparece no evento. Maldito Alberto. Aparecem apenas duas: uma namorada de alguém e alguma mina afetada que acaba chupando o pau de alguém no banheiro.

No churrasco de família temos um adendo interessante: crianças. Elas conseguem estragar toda a festa na piscina enchendo o saco de todo mundo ou cagando mesmo. Elas também insistem em correr. Correr muito. Algo na mente da criança, em eventos com outras crianças, diz "CORRE! CORRE MUITO!". Elas irão correr até uma cair e se foder inteira, fazendo com que todas as outras mães proíbam as crianças de correr, fazendo com que a energia infinita ali retida seja canalizada em encher o saco de seus familiares.

Já churrascos da turma de trabalho, existe uma espécie de etiqueta na atmosfera, onde ninguém age como agiria em um churrasco de amigos ou de família. Sim, tem crianças também, mas como as mães já as proíbem de correr no início da festa (ninguém quer fazer feio pra turma do trabalho), a encheção de saco se torna tanta que os pais da desgraçadinha ficam até sair a linguiça e vão embora depois de 2 horas. Após isso, o churrasco começa a ficar bom. Até porque as pessoas com filhos geralmente são chamadas por educação pra churrascos, e infelizmente elas aceitam ir. Devemos nos aprofundar mais um pouco, e ver as nuances dos grupos de conversa que se formam em cada um dos três tipos de churrasco.


Nunca um churrasco será composto por uma só corrente, como se todos estivessem curtindo as mesmas coisas em união. Conforme o tempo passa nos churrascos, grupos vão se unindo como que por natureza, e a cada um deles cabem características diferentes.

Em um churrasco de família, os pais e tios acabam se aglomerando na seção das cadeiras plásticas. É lá que 822 latinhas de cerveja ficarão. Nesse núcleo, os participantes se empenham em mentir sobre suas vidas, sem criar mentirar exageradas que gerem descrença, mas que seja pelo menos uma mentira que gere admiração por parte dos outros membros desse núcleo. Um desses membros é sempre o tio loucão. Geralmente ele é solteiro, usa roupas de jovem, embora tenha 40 anos, tem uma tatuagem que ele mostra pra todo mundo erguendo certa parte da camiseta, pode ter filhos, mas que estão longe, e é solteiro, podendo aparecer com uma mulher aleatória que não fala nada com ninguém, até porque ela só quer transar e ele, solteiro há 12 anos, está desesperado pra 1) introduzi-la na família e dar a entender que agora ela está em uma camada diferente da relação, de modo forçado; 2) Mostrar pra família que ele também tem uma vida amorosa estável, mesmo não tendo. O problema é que ela se solta depois, quando alguém aparece com uma pinga artesanal.

Já na cozinha, embora ninguém as obrigue a ficar nesse cômodo da casa, se reúnem algumas mães, mais velhas. Uma, habituada a uma rotina melancólica há 13 anos, começa a lavar a louça na medida em que ela vai chegando, tendo um destino parecido com o técnico das carnes preso na churrasqueira. O anfitrião da casa aparecerá em certos momentos e irá dizer que não precisa lavar a louça. Ela diz que "só estou lavando aqui", como se isso não fosse obvio e como se respondesse de alguma forma a pergunta. 

Outras mães ficam encostadas na mesa, geladeira, abrindo portas do armário e passando as mãos em algum pano de prato sem motivo algum. Os assuntos da conversa giram em torno da porcaria insignificante que seus filhos andam fazendo na escola, os dos gracejos nada graciosos que seus filhos fizeram em casa. "É uma figura!", responde uma mãe que pouco se importa com o filho mal-educado da outra. "Olha como ele é bonitinho", enquanto todas olham pra um dos filhos sorrindo, e ele, percebendo a plateia, trata de fazer alguma cagada débil mental, recebido por aplausos, já que ficaria mal dar nome aos bois naquela situação.

Temos também o núcleo dos adolescentes. Adolescentes homens logo tratarão de falar alguma porcaria sobre jogos ou o já clássico "já viu aquele vídeo?". Depois eles beberão uma cerveja ineditamente concedida por um dos pais, que é seguido por outros pais pra não ficar feio. Tudo gira em torno do "não ficar feio". Os adolescentes não sentem o gosto da cerveja. Sentem o gosto da vida adulta. Adolescentes mulheres ficarão no celular. Nada é melhor do que levar sua filha adolescente em um churrasco. Ela ficará naquela porcaria conversando com o cara que ela quer dar. "Sai desse celular menina!". Ela faz uma careta e sequer vocaliza sua objeção. Um dos adolescentes decidirá que aquela é a mulher de sua vida, aquela menina fresca do celular, e adotará a estratégia de encará-la incessantemente, até que ela perceba e se sinta constrangida. Ele comemorará qualquer olhadinha de 0,2 segundos que ela conceder aos seus olhos. Nada irá acontecer, feijoada. Depois ele irá bater punheta no banho pensando nela.

No caso de uma festa de trabalho, o processo é bastante similar, tirando o fato de que o núcleo dos pais de família (não o do pornô) o peso total dos integrantes é menor, já que tem muita gente de 30 anos que ainda não tem filhos. Os caras desse grupo que têm filhos farão questão de dizer aos que não tem filhos o que é ter filhos. É difícil. Você nem faz ideia. Você vai ver um dia. Eu já fui que nem você. Todo esse papo de invejoso barrigudo. Os que não tem filhos sugerem uma partida de truco, e aparentemente, nas regras deles, ganha quem gritar truco mais alto. A pinga artesanal aparece na mesa. 

O núcleo das mulheres de uma festa de trabalho é bem diferente. Geralmente próximo à piscina, ou em cadeiras plásticas na falta de uma, elas falam sobre o que fazem no cabelo. Mulheres jovens falando de roupa e cabelo. Sentada com elas, uma das mais velhas, sorrindo e vendo a conversa sem falar nada. Sorrindo talvez por nostalgia, ou porque ela constatou que suas companheiras de trabalho são retardadas. Acontece que essa mulher é um obstáculo, já que, o que elas querem mesmo é falar de rola. Quem deu pra quem do trabalho, etc. Elas sabem que pra velha rola é outro nome pra pombo.


Poucos adolescentes vão em festas de trabalho, levados pelos pais. Eles são obrigados a se entrosar com o núcleo dos adultos de forma muito tímida. Ninguém ri das piadas dele e ele não ri das piadas de ninguém, mas o grupo de adultos o vê como macho ômega, e começa a zoá-lo sempre que pode. Bem-vindo à selva, garoto.

Já no churrasco entre amigos temos menos grupos, já que todos estão meio que unidos em uma só coisa. Temos exceções em um churrasco de amigos, que giram em torno de um grupo grandão. O grupo grandão é formado por pessoas normais, um certo grupo de amigos homens, todos imbecis, que se unem pra defender a imbecilidade deles, as mulheres, caso o Alberto tenha sucesso, e alguém que não é normal, não faz parte do grupo de imbecis, não é mulher, e acha que conseguirá se entrosar (sem sucesso).

Na primeira exceção temos um casal de namorados, em uma relação recente, que age como se já estivessem casados há 4 anos. Chegam de mansinho, sempre de mãos dadas, falam "oi, oi galera" dando um salve geral em todo mundo e tratam logo de ficarem isolados. Quando chamados pra participar de alguma das inúmeras peripécias que ocorrerão nesse churrasco, o homem responde com um "não, não, vou ficar aqui de boa". O que pode acontecer é uma mina solteira, com ares de séria, se unir em uma conversa com eles, perguntando detalhes do namoro (e imaginando o motivo disso não acontecer com ela. "Por que só me apaixono por canalha???").

Existe também a dupla ou trio de amigos mais isoladões, mas que conhecem alguém dali, e que acabaram sendo chamados também por um engano nos convites do evento no Facebook. Eles ficam andando por lugares inóspitos da casa, até que alguém tira um baralho de Magic ou qualquer coisa deprimente do gênero. Não muito diferentes do grupo de adolescentes na festa de família que conversa sobre jogos de videogame, a melhor hipótese é que nunca se reproduzam. A humanidade agradece.

Aparece então a turma de 4 pessoas, um carinha e 3 vagaba, que chegam na festa com umas bebidas no nível de Catuaba ou Baianinha.

Agora que sabemos a constituição dos núcleos de conversa do churrasco, podemos chegar na última parte desse post.


Já passamos pela concepção da ideia, pela organização, por como o churrasco começa, como os núcleos se formam e agora é hora de ver o que acontece em um churrasco.

No churrasco de família, o desenrolar começa após a pinga artesanal ser colocada na mesa. Os ritos iniciais de preparar e comer a carne acaba, embora tenha uma sobra e alguém insistindo em fazer, mesmo com todos não aguentando mais os animais sendo digeridos em seus estômagos. Os pais de família começam a virar a pinga e fazer careta com 'AAAAAAI" logo após a bebida liberar o espaço que ocupavam em suas bocas. Eles então começam a ter crises de risos com a cara vermelha, convencem suas mulheres a beber a pinga (uma delas cospe o negócio). Os adolescentes conseguem espaço na sala e vão jogar videogame. A menina adolescente vai pra sala com eles, por sugestão de sua mãe, e fica no celular. Algumas crianças dormem em algum canto. Os pais começam a ficar com vontade de transar e as mães de ir embora. Fim do churrasco. Sobra um casal chato que fica lá conversando com o anfitrião, que está louco para que todos (no caso esse casal) saiam. Ninguém limpou porra nenhuma.

No churrasco de trabalho temos essa parte um pouco parecida, mas as mulheres bebem muito mais pinga. Uma mulher e um homem simplesmente desaparecem. Foram transar. Uma criança dorme em um quarto. A 45ª partida de truco começa e termina antes de sua conclusão. Alguém tem a ideia de todo mundo ir pra casa tomar banho e sair pra algum lugar. Todos concordam alegres. Ao chegar em casa, todos desistem da ideia e dormem.

Por último, o churrasco de amigos. A carne acaba logo, já que jovens não têm dinheiro. A cerveja também. Sobram os destilados e a Baianinha que as vagabas trouxeram. Logo todos estão mais loucos do que Nero quando queimou tudo. Mortais na piscina vão ficando cada vez mais frequentes e mais mortais, chegando bem próximos da paraplegia. Duas mulheres se beijam pra chamar atenção. Alguém do grupo de excluídos que joga Magic começa a demonstrar seus problemas mentais e dá algum piti. Outro vomita no banheiro. Um dos caras imbecis recebe um boquete no banheiro de uma das minas que se beijaram. Uma dupla de caras sai na porrada por uma frase atravessada. Depois eu não sei o que acontece, já que eu também, quando presente nessas ocasiões, fiquei muito louco e dei blackout. Está aqui a maior análise já feita sobre churrascos.

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