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EDITORIAL: Esse comercial da Harley Davidson e por que parei de ouvir Olavo de Carvalho

O novo comercial da Harley Davidson traz uma pessoa dizendo que "diz sim quando quer e não quando não quer" como se isso fosse algo muito incrível.


Não para aí. Tudo bem, "dizer sim quando quer e não quando não quer" é algo simples, você faz toda hora. Só alguém extremamente frágil acata todas as vontades alheias. Só que tem um problema: esse comercial foi testado antes. Nenhuma agência de propaganda vai gastar uma nota em um comercial (pelo o qual será paga com uma nota maior ainda) e simplesmente atirar no escuro. O público aceitará a mensagem passada? Atingiremos nosso resultado que é identificar certo tipo de pessoa, com certos valores, o tipo de pessoa que queremos que compre nossa moto, com a Harley Davidson?
Então é normal que se gravem vários ou alguns comerciais diferentes, onde eles testam a aceitação do público com pequenos grupos de pessoas reunidas por algum instituto privado de pesquisa. Essas pessoas se encaixam nos parâmetros do público-alvo do comercial (exemplos: de 25 a 33 anos, Classe A/B, blablabla). Após isso, esse comercial foi aprovado pra vir pra cá e está sendo direcionado pra essas pessoas que se encaixam no público-alvo. É um tiro quase certeiro. Os resultados do comercial aqui serão mais o menos o resultado médio ocorrido nos testes feitos pelo instituto de pesquisa contratado. Às vezes esses cálculos, pra ver onde esse "tiro" vai cair, ou seja, o efeito que a propaganda terá sobre o público em geral e o público-alvo, dão tão errado que o tiro sai pela culatra e a marca é manchada em maior ou menor nível. Em outros casos, espera-se que a propaganda seja razoável e acaba sendo um enorme sucesso. Como diz o personagem Don Draper, de Mad Men, ao ser perguntado por um cliente se a propaganda seria um sucesso, responde: "Não sei. Não é uma ciência".
É justamente por essa tremenda imprevisibilidade do resultado de uma propaganda que, conforme o tempo passa, mais esse meio passa a se valer de ferramentas científicas. E ao se valerem dessas ferramentas, fica claro que querem tomar ciência de algo. Do quê? Do que você vai gostar. Eles querem saber se vai gostar da propaganda antes dela ser mostrada pra você. O que é um tanto estranho, porque você nunca foi consultado sobre isso, e nem pode: eles querem ter certeza de que você vai gostar e não podem te consultar porque você teria que ver a propaganda e isso destruiria todo o propósito do negócio. Então precisam ser pessoas parecidas com você. "Como assim, parecidas comigo? Cada pessoa tem trilhões de características". Voltemos ao comercial. Ele começa com panos ao vento, sons indicando um clima de mistério, de que algo grande vai acontecer. PAM! Um barulhão acontece ao mesmo tempo em que uma moça abre os olhos em uma cama. A cena corta pra ela subindo em uma moto, enquanto sua voz, gravada, aparece em cima da cena. Ela diz:

"Cara, eu sou super no controle da minha vida. Assim, eu luto por isso, é...eu moro longe dos meus pais tem tempo, saí de casa muito nova. A gente sente falta do aconchego de casa, né, mas eu acho que você ter sua vida, você levar os seus próprios tapas na cara, é muito importante". "Sou formada em produção de moda, hoje trabalho como produtora de moda, trabalho com figurino, sou ilustradora, cara, minha paixão. Gosto muito de conseguir passar o que vem de dentro de mim pras pessoas". "Liberdade pra mim é expressão. É poder...é clichê sim, é poder viver, é poder sentir, E A MOTO, ÓBVIO, TOTAL ENVOLVIDA NISSO...total, me proporciona muita coisa...muita coisa". Agora ela está no meio do mato com um cara ao redor de uma fogueira e girando uma folha em chamas como em todos esses clipes de música indie.

Ok, vamos voltar pra linha de raciocínio. Existem várias coisas aí. Primeiro é essa ideia, que já me infectou também, de que você tem que abandonar a sua família assim que fizer 18 anos de idade. Claro, não afirmo com certeza de que essa personagem do comercial tenha saído de casa por conta desse pensamento, mas falo do pensamento em geral, esses que ouvimos por aí quando interagimos com outras pessoas. É muito comum pessoas com 20 anos que só porque já fizeram um monte de cagada na rua acham que sabem como é o mundo e como se virar nele, sofrendo pra tentar morar sozinho e acabando em uma tempestade de bosta. Como uma pessoa é capaz de pensar que só abandonando a família ela estará ingressando na fase onde começará a realmente correr atrás de seus sonhos? Só com a família é possível prosperar. Por que você acha que todas as nobrezas do mundo são compostas de famílias? Família "Bilderborg", Família "Goldenfeller", e esses nomes, sabe? Tem algum motivo pra esse estranhíssimo padrão. E vou te explicar: é óbvio que um conglomerado familiar sólido e bem cuidado irá sempre se dar melhor do que uma família completamente fragmentada. É óbvio que vão prosperar muito mais, porque é uma rede de pessoas unidas por algo maior do que a união que sentimos pela nacionalidade, raça, crença, etc. A maior união entre grupos de pessoas que existe, a mais forte, é a família.

"É!!!! Verdade!!! E estão tentando destruir a família brasileira! Vamos destruí-los!" - não cai nessa. É claro que em todas as épocas do passado e do futuro existirão pessoas dispostas a manipular massas pra que ajam de acordo com seus interesses, mas elas não podem ser poderosas ao ponto de gerar maldade magicamente no coração das pessoas boas. Não podem porque pessoas más são inferiores a pessoas boas. NÃO TEM EXCEÇÃO. Uma pessoa má teme uma pessoa boa porque ela não conseguiria prosperar em um meio bom. Uma pessoa má precisa prosperar de jeitos ruins (a não ser quando dá sorte), precisa manipular, mentir, colocar todos contra todos e sair por cima. É por isso que as pessoas más querem transformar gente boa em ruim, ou pelo menos coniventes com a maldade (e ser conivente com a maldade é a mesma coisa que ser mau, no final).

Mas ainda assim, a maldade está agindo! Dominaram sim as faculdades, estão manipulando sim centenas de milhares de jovens que entram em crises de despersonalização e histeria coletiva, infectam eles com pensamentos ruins e quando eles saem da faculdade, e vão por exemplo trabalhar em uma agência de publicidade, passam exatamente esses valores ruins pras pessoas (ou se tornam coniventes a eles). O caso aqui da Harley Davidson nem passa perto da hipótese dos publicitários esfregando as mãozinhas e pensando em como destruir a família brasileira. Chegar nessa conclusão é no mínimo preguiça de pensar. Na verdade esses publicitários (ou mais provavelmente os marqueteiros que encomendaram a propaganda pra publicitários) detectaram que o público-alvo pra quem eles querem anunciar a propaganda se identificaria com aquilo. Isso quer dizer que essa ideia, por exemplo, de que fugir da família é liberdade e liberdade é sucesso, já está nas pessoas. Essa ideia já impregnou a quase totalidade da juventude brasileira. O trabalho deles na verdade foi ligar esse sentimento ruim, essa ideia ruim, que já existe nas pessoas, pra moto. E só.

Se as pessoas boas forem jogar o jogo da maldade, certamente irão perder. A maldade tem muitas vantagens. Ela não liga de trapacear, mentir, matar, ludibriar, seduzir, e em uma guerra cultural de ocupação de espaços à lá Gramsci, a maldade sempre vencerá. A verdade é diferente. Ela não fala pelas costas. Ela não age por baixo dos panos. A verdade é luz, e quando usada como uma espada derrota qualquer maldade. Sempre dá errado quando você tenta jogar o jogo da maldade pra fazer o bem. Um exemplo? O sistema de abrandamento de penas no sistema judiciário mediante cooperação do bandido. O bandido entrega algum esquema mais importante? Ganha liberdade ou algum acordo. A intenção é fazer o "bem maior": jogo o bandido inútil fora e prendo um sistema horrendo muito maior que ele. A intenção é aparentemente boa, mas acaba transformando mega-bandidos em sócios do estado, e acaba fazendo justamente o contrário do que prometia: acaba protegendo os maiores esquemas que existem.

A vitória da bondade não virá com uma guerra cultural de um grupo que se infiltrará na mídia, universidades, meio cultural e na política. Lembrando: esse é o jogo da maldade. Ele existe e é importantíssimo entendê-lo. A vitória da bondade virá quando as pessoas de bem pararem de tentar mudar o Mundo, e começarem a tentar mudar o coração do próximo que se distancia da bondade. É até engraçado: um monte de imbecil, vendo as pessoas ao redor delas irem pro buraco, e sem saber como reagir na queda de braço que se dá quando você tenta combater uma mentira frente-a-frente com alguém, vai pra internet ficar xingando petista e achando que está fazendo alguma coisa. Pare de tentar mudar o mundo e toque o coração do próximo, é o único jeito da bondade vencer. E não adiantará nada se a sua pulsão pra "salvar o Brasil" seja o dólar mais baixo. Com objetivos tão imbecis, ninguém toca o coração de ninguém. A única forma de tocar o coração de alguém é quando você quer, de fato e verdadeiramente, o bem do próximo.

Olavo de Carvalho agora lançou um curso, que custa 400 reais, chamado Guerra Cultural, e ao que tudo indica, não só ensinará como os agentes dessa guerra já atuam. Ensinará também aos seus alunos como atuarem nesse jogo. Ele se mostra perante ao público como um católico fervoroso. Li alguns de seus livros, vários de seus artigos, e muitas horas de suas video-aulas. Porém, veja o que Olavo diz em "O Advento do Cristianismo" (você não precisa ser católico ou nem temente a Deus pra chegar na conclusão que cheguei):

“No Evangelho tem doutrina? Não tem doutrina nenhuma, tem uma narrativa.” (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 23 – É Realizações – 2003) “Você não vê uma exposição doutrinal no Evangelho inteiro. O Evangelho é uma primeira narrativa de um fato, e só.” (Idem, p. 33) “Pelo lado cristão, é preciso ter tido muitos concílios e ter estabilizado um certo corpo de doutrina(…)”(Idem, p. 51)

Bom, pra quem não conhece como funciona, os Papas podem fazer espécies de decretos que dizem quais ideias são heresias ou não. Devido às inúmeras tentativas de corromper a Igreja ao longo dos tempos, esses decretos se fizeram extremamente necessários pra salvar a religião de pessoas que tentavam injetá-las nela. O Papa São Pio X fez um desses decretos, chamado de Lamentabili, e uma das coisas que acarretaria em condenação por parte da igreja é a seguinte ideia:

“Cristo não ensinou um determinado corpo de doutrina, aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares".

(Pra ver o decreto Lamentabili na íntegra, clique aqui).

Mas não foram poucas as vezes em que Olavo, que usa esses decretos pra acusar outros de héreges, comete heresias. Um grande compilado dessas vezes, comparando trechos de seus livros e aulas, com trechos considerados como heresia pela Igreja Católica, foi feito pelo Instituto Montfort. Clique aqui se quiser saber detalhes. Esses detalhes provam uma coisa: Olavo está injetando ideias ruins em católicos e em todos os seus seguidores. Mesmo que você não seja Católico, só esse fato coloca em cheque tudo o que Olavo diz. Como ele pode ser o católico fervoroso que xinga a palavrões os hereges e ele mesmo, abertamente, defende heresias? Existem muitas coisas muito estranhas nessa história, mas pra mim só isso é o suficiente pra que eu não me deixe guiar mais pelo Olavo.

Não precisamos de uma guerra civil. Precisamos de gente disposta a dizer a verdade. E como Olavo não diz a verdade, não precisamos dele.

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