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O que São Tomás de Aquino tem a nos dizer sobre "depressão" e "ansiedade"? Conheça a Acídia

"De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo"
Adélia Prado, "De Profundis"

Todos os que sofrem com essas doenças da modernidade parecem sofrer também com certo desnorteamento. Desesperados pra que os transtornos cessem, e sem encontrar alguém que aponte uma possibilidade de cura, se refugiam em remédios que os dopam ou em psicólogos que, com manobras cognitivas, conseguem pelo menos deixar as péssimas sensações em estado de dormência (e não raro, despertam mais fortes do que antes).


A verdade é que a psicologia moderna se mostra agora totalmente incapaz de lidar com o problema. Sem conseguir nem definir direito o que seriam tais transtornos que surgiram com tudo nas almas de centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo, os próprios pacientes ensaiam definições e regras de conduta sobre como agir perto de um portador da doença. Não é nada difícil encontrar alguém no Facebook compartilhando algo sobre "sinais da ansiedade", "o que não falar pra quem tem depressão", etc.

Por que essa cura nunca é encontrada? Ela afinal, existe? Devemos nos contentar com um estado de dormência? A vontade de responder essas perguntas é grande, mas precisamos ter calma e partir pra um problema léxico: as definições de "depressão" e "ansiedade" estão corretas? Poderiam essas duas coisas, que quase sempre aparecem juntas de forma cíclica, serem uma coisa só?

De forma humilde, fui buscar o conhecimento humano já disponível no mundo, e me deparei com uma possível resposta em um conhecimento mais que humano: conhecimento Santo!

O catecismo atual fala que um dos pecados capitais é a preguiça. Nem sempre foi chamado assim. Quem hierarquizou pela primeira vez de forma excelente os pecados foi São Tomás de Aquino, autor de obras literalmente divinas (sem desconsiderar os esforços de homens como Evágrio Pôntico e Gregório Magno). Ele chamava a "preguiça" de Acídia, e a definia como a tristeza pelo bem espiritual; a acidez, a queimadura interior do homem que recusa os bens do espírito.

Já temos aí uma pista: nunca na história da humanidade se recusou tanto os bens do espírito como na "Era da Razão", derivada da filosofia moderna do "princípio da dúvida", da "ordem vinda do caos", que, sem surpresas, desembocou em niilismo generalizado, falta de sentido geral. Não é coincidência acidental, e sim incidental, que a recusa pelos bens do espírito tenha gerado uma explosão de "depressão" e "ansiedade".

Sei que há grandes chances de você não ser religioso e enxergar a definição de "pecados" como moralismos bobos, mas fazendo isso você está fechando seus olhos pra um grande conhecimento. O pecado é um vício auto-destrutivo, um comportamento com fim nele mesmo que só pode consumir as coisas ao redor e causar uma implosão do espírito, como um buraco negro. Na definição dele, os 7 pecados capitais são os pecados chefes que sempre trazem junto com eles os seus "pecados subordinados", como o general carrega um exército. Por exemplo: um subordinado do pecado da inveja é o sussurratio, ou "fofoca". Faz sentido que invejosos acabem caindo em fofoquinhas? Muito! Então mesmo não sendo religioso, absorva o conhecimento tomista: é pro seu bem. 

Vamos voltar ao foco: pra conhecer um mal, já diz o Santo, é necessário volta-se ao fenômeno, para os modos concretos que ele ocorre. A depressão e a ansiedade são coisas ruins, e pra conhecê-las, deve-se usar o mesmo método: enxergar o fenômeno da forma que ele ocorre, não com teorias abstratas que não chegam em lugar nenhum (mas ficam bonitinhas no papel e é uma beleza de compartilhar por aí).

Veja que os outros seis pecados capitais sempre surgem pelo convívio com outros. A Acídia é diferente: surge da solidão. Muito antigamente uns padres iam pro meio do deserto pra explorar os confins da alma. João Cassiano, algo como o primeiro jornalista da história, percorreu longas distâncias pra entrevistas esses padres, e ele fala sobre o pecado:

"A tristeza e a acídia - ao contrário dos outros vícios de que falamos anteriormente - não costumam originar-se por uma motivação exterior. É sabido que com freqüência afligem amarissimamente os solitários que vivem no ermo, longe do convívio dos homens. Isto é verdadeiríssimo e quem quer que tenha vivido nesta solidão e tem experiência (expertus) dos combates do homem interior, facilmente o comprova nessas mesmas experiências (ipsis experimentis)"

Outra pista: alguns já têm a noção de que hoje temos uma espécie de "neo-solidão" generalizada. Mesmo em ambientes cheios de gente, mesmo convivendo com muitas pessoas, é comum entrar em uma "bolha" e se sentir alheio a todas as coisas, como se você fosse um espectador do mundo. Tal neo-solidão será o terreno fértil pra essa explosão de "depressão + ansiedade", que como você já deve ter notado, é a Acídia.

Veja que tal coisa como uma "depressão" mesmo existe: uma disfunção química no cérebro que altera o humor de forma que não se sinta vontade de viver, e como toda disfunção do tipo, é bem rara. Digo aqui que o kit "depressão + ansiedade" é apenas uma confusão, e que essa doença só pode ser da "informação", como diriam os psicólogos Flo Conway e Jim Siegleman (que escrevem a maravilhosa investigação "Snapping) ou "doença do espírito", estudada pela noologia de Viktor Frankl, criador da Logoterapia. É uma doença da dimensão metafísica, que não pode ser vista por microscópios, medida por exames de sangue e tampouco extraída em uma cirurgia, já que como São Tomás de Aquino diz, está na alma. E esse kit é um problema grave, já que capturou milhões e milhões de almas que estão completamente desesperadas e perdidas. O Santo reconhece o problema:

A Acídia é uma tristeza, e como pecado capital, trará vários outros subordinados derivados dela. O Santo explica aqui a classificação de Acídia como capital:

"Como já dissemos, vício capital é aquele do qual naturalmente procedem - a título de finalidade - outros vícios. E assim como os homens fazem muitas coisas por causa do prazer - para obtê-lo ou movidos pelo impulso do prazer - assim também fazem muitas coisas por causa da tristeza: para evitá-la ou arrastados pelo peso da tristeza. E esse tipo de tristeza, a acídia, é convenientemente situado como vício capital"

E como já disse, é um pecado que age diferente, e eis aqui uma outra peculiaridade: os pecados capitais sempre levam a uma ação. A Acídia tem dois movimentos opostamente simétricos. Ela leva a uma inação e depois a ações desenfreadas por um efeito "cumulativo". A frieza e acidez da alma "fermentam" e trazem o tédio aborrecido.

É importante notar que a tristeza em si não é uma doença. Uma das manias feias da modernidade é tentar não sentir. Parece que é feio, ou ridículo, chorar enquanto se grita aos céus, ou sair correndo de felicidade. Os sentimentos modernos não podem ser quentes ou frios: todos parecem meio cinzas já que estão mornos e anestesiados. Eis que, aquele que se deixa entristecer de forma mórbida e se deixa entrar em êxtases de felicidade é tido como louco, mais precisamente alguém que sofre de "transtorno bipolar". Jean Lauand, professor titular da FEUSP, fala disso em um texto justamente sobre o assunto:

"Segundo Tomás, a criatura é dúplice em sua estrutura fundamental: por um lado, participa do Ser (e da verdade, da bondade, da beleza...) de Deus; mas, por outro lado, é treva, enquanto procede do nada. E essa estrutura dúplice projeta-se num apelo contraditório ao homem (também ele criatura...) em seu relacionamento com o mundo: daí a "normalidade" da "psicose maníaco-depressiva existencial" ou, como se diz hoje, do transtorno bipolar.

A gravidade dessa "patológica" normalidade - que deveria ser a constante situação do ser humano no mundo - passa, na verdade, despercebida para a imensa maioria, que não se dá conta de nenhum dos dois pólos do transtorno, situando-se numa morna mediocridade, alheia ao dramático potencial contido em cada centímetro quadrado do quotidiano. Essa incapacidade de se deixar abalar, de sentir a vertigem existencial do apelo da realidade, traz consigo a "tranqüilidade" do anestesiado, que só se inquieta para reagir quando algo ameaça romper a segura redoma em que instalou seu pequeno mundo"

A poetiza da epígrafe, no mesmo poema, fala sobre a "alma ciclotímica", que é a nossa condição mesma. Ainda na análise de Jean Lauand, que serve de grande base pra esse texto, vamos analisar os dois pólos do que chamamos hoje de "transtorno bipolar" e na verdade é só vida mesmo.

A criatura (nós, no caso) é mais do que seu ser aparente, pois tem a competência do mirandum. Seguindo uma convocação natural à alma de admirar as coisas, pra mim celestial, que provoca o prazer de Ser, aquele prazer intenso de quando você aprende uma coisa nova que muda tudo pra você (mesmo que não ganhe nada material, longe disso. Aprender a admirar uma nova beleza vale mais do que qualquer dinheiro), ou de simplesmente ver um pássaro voando. A palavra pra essa sensação é THAMBOS, que o grego significa "maravilhamento". Na ordem da Criação, quem representa isso é o Bem-te-vi. E infelizmente temos o pólo negativo.

Segundo São Tomás de Aquino, a criatura per si procede do nada, e portanto, o conhecimento que provém da criatura só pode ser treva. Ele chega na conclusão de que quanto mais scientia, maior a "depressão", pois se constata também quão deficientes são as coisas no mundo. E oras, estamos entupidos de scientia hoje, e sem direito a nenhum THAMBOS e muito menos o direito à tristeza mórbida.

Então note: a alma saudável é ciclotímica e passa de Thambos extremo pra tristeza mórbida porque é assim que funcionamos. A psicologia moderna nos impôs que essa característica ciclotímica é um "transtorno", e que só estamos saudáveis quando agimos como mornos robôzinhos com emoções sempre estáveis e que não deixam ninguém constrangido (vai que alguém se assusta com sua extrema felicidade ou tristeza, não é mesmo?). Impedidos de participar do bem do mundo (e de ver o mal também) certo acúmulo começou a se formar na alma, e junto com o niilismo generalizado, só podia dar em Acídia: a tristeza ácida por conta do desprezo da alma, que quando "fermentada" produz inquietação, vontade de ação desenfreada e, por não podermos agir desenfreadamente, o desencadeamento do ciclo de ansiedade antecipatória, descrito por Viktor Frankl no livro "Logoterapia e análise existencial, seis textos de décadas". A acídia então pega pra ela essa característica ciclotímica, e os dois pólos dela são justamente o que chamamos de "depressão" e "ansiedade'.

Santo Agostinho também fala sobre a Acídia: "para a alma (do que sofre de acídia), todo alimento é repugnante". A pessoa presa no ciclo da acídia precisa entrar em distrações, como espectadora, já que sua participação ativa nas coisas a chateia. Uma conversa qualquer se torna insuportável.

A boa notícia é que São Tomás de Aquino também tem o "polo positivo" dos pecados capitais: os Dons do Espírito Santo. Ele contrapõe o pecado da Acídia com o Dom da Fortaleza: o esforço de não se deixar dominar por essa acidez d'alma.

Pra sair do ciclo da Acídia, só quebrando-o: nos momentos em que sua alma pedir tristeza, não fuja pra alguma distração. Se deixe afundar nela, entenda-a. Muitas inquietações são pensamentos que pedem pra ser terminados, mas você não deixa. Quando se sentir disposto, mergulhe no THAMBOS! Não ligue pros chatos modernistas que não gostam de vê-lo alegre pela manhã. Dê bom dia até para os pássaros!

E São Tomás de Aquino, rogai por nós!

Para saber mais:

O Papel do Bem-te-vi na Ordem da Criação - Profº Plínio Corrêa de Oliveira
De Profundis - Adélia Prado
Snapping - Flo Conway & Jim Siegelman