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Verum, Bonum, Pulchrum - Trilogia

Escrevi três textos sobre a ontologia e as relações entre a Verdade, a Bondade e a Beleza no ótimo site Politz, que agrega notícias e as classifica com seu grau de confiança, contando com um leque muito extenso de fontes. Você pode acessá-lo clicando aqui.


1. O bem e o mal


Pedirei pra que reflita por um instante. Antes de te dar a pauta, porém, devo no mínimo esclarecer o que é o ato de refletir. Óbvio que não estou pedindo pra colocar-se na frente de um espelho, não é nada físico, já que é apenas na sua mente que isso ocorre (e só pode acontecer lá). Pra achar onde refletimos, precisaremos refletir também. Refletir no dicionário está como meditar, mas não à toa é sinônimo de seu significado físico, já que encontra algumas semelhanças. A luz bate no espelho e volta, então reflete. Você se coloca na frente do seu pensar, então reflete. Sem o pensar, não haveriam seus pensamentos, e veja: o pensar, que você coloca diante de si, também é seu, então toda reflexão é também uma auto-reflexão. É isso o que diz Viktor Frankl em seu compêndio sobre a Logoterapia, caracterizando um "antagonismo psiconoético", uma contraposição entre psique e espírito, sendo uma das coisas que nos diferem essencialmente dos animais. O cachorro pensa, sabe que precisa ir até o pote de ração pra poder comer, mas não reflete (e auto-reflete) e por isso não costuma filosofar, ou pensar que sua vida é tediosa, etc. 

Como eu disse, essa auto-reflexão não pode ser física. Você não sai voando no mundo físico ao pairar sobre os pensamentos. Tampouco, ao abrirmos o cérebro, mesmo com o melhor do microscópio poderemos ver os pensamentos ou as moléculas deles. Os pensamentos, bem como sua capacidade de reflexão e auto-reflexão pedem uma dimensão pra eles. Na dimensão física do espaço-tempo não estão. É aí que entra a metafísica. É no mundo metafísico que seus pensamentos (espero que você pense) estão. Agora, vamos seguir.

Ao refletir sobre a bondade e a maldade, poderemos cair em terríveis enganos se não entendermos direito o que é o plano metafísico. Considerando apenas o mundo físico, material, existem dois caminhos pra explicar o bem e o mal. O primeiro considera como bondade aquilo que melhor nossa espécie, desemboca no que conhece como "coletivismo", e acaba em atrocidades, já que não demora pra aparecer um grupo culpando outro por algo, e se o bem é melhorar a sociedade como um todo, eliminar esse grupo que recebe a culpa (real ou não) se torna o bem. Não foram poucas as vezes em que essa noção de moral causou milhares ou até milhões de mortes.

O outro caminho é individualista, e acredita que a maldade é causar algum tipo de dano ao próximo, colocando a bondade como o que causa algum ganho ao próximo, ou até mesmo como um não-fazer, um "ficar fora do caminho". Essa moralidade, uma vez aceita, colocará a economia no topo da hierarquia das coisas que importam, já que, se bondade é proporcionar um ganho ao próximo, e a economia é um sistema de trocas voluntárias onde todos os que provocam algum tipo de ganho ao próximo têm sucesso, então a economia é essencialmente boa, e sobe ao patamar de Grande Motor da História.

Agregando elementos desses dois, mas não sendo apenas uma "mistura desses dois", temos o "tradicionalismo", e enxerga que nossa noção de certo ou errado vem de um jogo de tentativas e erros milenares, que culminou na tradição, que deve ser defendida. É uma posição que se auto-engole e auto-cospe, como a cobra Ouroboros, símbolo alquímico. Não é a moral que é consequência da tradição. A tradição é consequência da moral. Invertendo a causa e o efeito, o tradicionalismo se esvazia da essência moral, já que coloca a própria tradição como essência, e a moral, sem ser o guia, perde o sentido, e provoca uma subversão: a revolta contra a ordem das coisas. 

O problema de todas essas visões é o que elas têm em comum. Em todos os casos, a visão sobre a moral é material. Um lado pra explicá-la aposta em um constructo coletivo: o que enxergamos como moral é a moral. Se nossa visão muda, a moral muda. Confundem moral com ETHOS, um conjunto de costumes e hábitos fundamentais que caracterizam a coletividade de certa cultura. O ETHOS é suscetível ao modo como certo coletivo enxerga a moral, mas a moral mesma não.

Outro lado explica a moral como "o que dá ou tira", ou explica como "o que foi incorporado na sociedade via tradição".

Um nos transforma em egoístas e interesseiros, outro esvazia o sentido das tradições, colocando esse sentido nelas mesmas, provocando uma revolta.
Isso tudo pode ser elucidado quando explicamos o mundo moral no âmbito metafísico.

O certo e o errado, neles mesmos, independem de qualquer visão humana sobre eles, de qualquer tradição que projeta esses valores e de qualquer vantagem ou desvantagem. Um exemplo: é costume na China abortar o bebê caso se descubra que se trata de uma futura mulher. Pra eles, uma filha é uma desgraça que se abate na família. Se todas as pessoas do mundo pensassem assim, isso se tornaria certo? Absolutamente não. Seria o novo ETHOS do mundo, mas não seria certo. Isso é uma tradição chinesa, costume que passa de família em família, geração em geração, há muito e muito tempo. Se um lugar assim coloca como guia o "tradicionalismo", não será capaz de fazer o certo. Esse pensamento, baseado na circunstância, permeia as coisas erradas, e esvazia de sentido as coisas certas.

Sendo assim, a moral está para além da gente, transcendendo e englobando a humanidade inteira, como uma só, imutável. Por isso que tentar destruí-la é na verdade um afastamento dela, já que também é indestrutível. A caridade sempre será boa, não importa se todos nós tenhamos nos esquecido dela, ou a façamos apenas por interesse próprio (como narcisismo, propaganda, espera de um retorno do favorecido, etc). A moral não parte do humano. Ela foi dada a nós. Agora sim: reflita sobre isso.

2. Verdade e mentira


Homens que tateiam há muito tempo na escuridão total, pra cessar o desespero, podem inverter a realidade na cabeça como mecanismo de defesa. Invertendo tudo assim, passarão também a ver a luz como trevas, condição pra que as trevas sejam luz. A consequência é essa: os que partem ao socorro serão atacados pelos socorridos.

Não acho que exista uma verdadeira discussão acerca do conceito de Verdade, já que ela ocorreu há muitos séculos atrás e está elucidada por completo. Em sua Suma Teológica, na Questão XVI, São Tomás de Aquino diz que a verdade não está para o intelecto, rejeitando a tese de que verdadeiro é aquilo que se vê (existem coisas verdadeiras que não são visíveis), e rejeitando também a tese de que verdadeiro é o que aparece como tal ao sujeito. Se a verdade não está para o intelecto, está para a coisa. Explicando a duras penas: uma pedra continua sendo uma pedra mesmo que ninguém a conheça, e mesmo que alguém discorde que aquilo seja uma pedra. É um tanto simples, aliás.

Passam-se séculos desde que o Santo, e não só ele, elucidaram a questão, e algo nos desconectou desse conhecimento básico. Se hoje você afirma o óbvio, que toda Verdade é absoluta, sendo ela por ela mesma, despertará uma espécie de raiva descontrolada por parte de alguns, ou outros, mais polidos, dirão suas dissonâncias cognitivas com soberba. Eles dizem que a Verdade depende da forma como a enxergamos, e também dizem que ninguém é dono da Verdade (primeira dissonância cognitiva). Cada um tem a sua verdade, mas ninguém tem verdade alguma. As consequências de se aceitar essa lógica auto-anulativa na cabeça são drásticas, criadoras inclusive de neuroses. Decidir por aceitar isso faz com que o pensamento infectado vá infectando todos os outros como que em um efeito dominó. Como que alguém consegue aceitar algo tão contraditório assim? Os que não concordam parecem perdidos na oposição, culpando algo como a entidade abstrata “politicamente correto”, e atirando nisso, erram completamente o alvo. Outros culpam outra entidade abstrata um tanto turva, a “esquerda”, tão turva quanto a “direita”, e vos digo: tais conceitos não tocam a realidade de maneira alguma. São entendimentos errôneos, até bobos, dos complexos conglomerados entre correntes filosófico-morais que sempre culminam em atos que devem ser políticos. Os que atiram nesses alvos também erram, já que não estão atirando em coisas reais.

Onde está a raiz, então, desse vírus? Está na Filosofia Moderna. Já ouviu a frase “Penso, Logo Existo”? Ela é o grande vírus do pensamento moderno, e vai culminar também nesses jovens destruindo a própria aparência e negando que exista algo como “Verdade”. Pra entender exatamente o que aconteceu, precisaremos voltar ao início da Filosofia.

A Filosofia clássica, aquela de Aristóteles, começa diante o deslumbramento gigantesco diante da Realidade, que gera até certa alegria. Sabe quando você descobre uma nova coisa e sente aquela ótima sensação? É esse deslumbramento, o THAMBOS, que causa a combustão do motor filosófico (que chegará no Motor Imóvel aristotélico, pra aproveitar a palavra, e que prova um Deus Uno e Trino, conceito usado também pelo São Tomás como primeira das suas Cinco Vias pra se provar a existência de Deus).

Se a Filosofia clássica parte do maravilhamento perante a certeza, a Filosofia Moderna faz justamente o contrário: o recolhimento perante a dúvida. Descartes, dizendo partir do “princípio da dúvida”, parte de uma dissonância cognitiva, já que parte do princípio da certeza da dúvida. Ele está certo perante a dúvida que tem sobre tudo. Não há como o ponto de partida de uma filosofia ser puramente a dúvida, como ele alega ser. Como eu disse, ele precisa ter certeza dessa dúvida, o que deveria demolir sua filosofia inteira, ou pior: desembocar em uma grande mentira.
A frase na verdade é “Cogito, ergo sum”, “Penso, logo sou”. O complemento dela é: “Dubito, ergo cogito, ergo sum”, “Duvido, logo penso, logo sou”. Daí que vem esse “princípio da dúvida”. Descartes diz que se você duvida, você pensa, e se pensa, é, então para ser você precisa duvidar. Pode não parecer, mas as consequências disso são macabras.
O pensamento, a partir dessa filosofia, adquire duas qualidades simetricamente opostas, já que parte de uma dissonância cognitiva, uma contradição essencial. É o pensamento aqui quem gera a existência, o Ser, então ele adquire uma capacidade criadora. O pensamento é o criador da existência. Não é difícil chegar na conclusão que, se penso em algo, logo esse algo também existe. É daí que surge a verdade como um constructo social, por exemplo. Por outro lado, quem cria o pensamento é a dúvida, então a capacidade criadora do pensamento não surge da certeza da realidade, e sim da dúvida do que essa realidade nos mostra. Então o pensamento é incapaz de determinar por si só o que de fato é, dependendo então de ferramentas, medidas, que nos darão o aval do que está escondido por de trás dessa realidade duvidosa proposta por Descartes. É daí, que muito bem coloca a Assossiação Cultural Montfort, que as sociedades modernas que se erguem em cima desse pensamento, ao mesmo tempo que cientifistas, sofrem um surto de esoterismo e misticismo. Só podemos acreditar no que podemos medir e testar, ao mesmo tempo que o pensamento pode criar realidade. É daí também que os mesmos que obtém uma fé infinita em tudo o que a entidade “Ciência”, leia-se: ciência calcada em em Filosofia Moderna, também acabam desembocando em toda sorte de relativismos.
Se a verdade existe, como nos demonstra São Tomás de Aquino, a mentira também existe, e o que seria ela? Toda mentira precisa existir em função da verdade que ela esconde, já que todas são análogas a essas verdades. Mentiras não são compostas aleatoriamente, ou seriam apenas interpretações errôneas que não condizem com a realidade. Pelo contrário: mentiras são feitas pra esconder dentro delas, ao mesmo tempo em que se desvia do que se esconde, a verdade. São labirintos com armadilhas feitos pra que não se chegue no grande tesouro que aprisionam: a verdade. A Filosofia Moderna determina que esse labirinto com armadilhas é a própria realidade, e a Realidade determina que o labirinto com armadilhas é a filosofia moderna. Não há meio termo. No texto passado demonstrei que o bem e o mal existem, assim como demonstro agora que a Verdade e a mentira também existem da mesma forma. No próximo texto completo a trindade: a beleza e a feiúra. Completar essa trindade é o início de uma longa viagem em busca do Caminho correto. Até mais.

3. Verum, Bonum, Pulchrum


No século XIX, o filósofo francês Victor Cousin lançou um livro chamado “Du Vrai, du Beau et du Bien”. Ele diz ali que a filosofia sempre parte das ideias básicas de “Verdadeiro”, “Belo”, e “Bem”. Platão também concebe essa tríade em seu Fedro. Victor Cousin reparou que toda a filosofia, clássica ou moderna, precisa partir das noções básicas de Verdade, Bondade e Beleza. A filosofia clássica e a medieval, onde está a filosofia aristotélico-tomista, considera que essa tríade é indissociável. Não há como falar de um sem falar dos outros dois. Os adversários da filosofia aristotélico tomista, como Platão, Nietzsche, Descartes e toda a Filosofia Moderna perante o núcleo filosófico contendo a tríade que nos é imposto pela Realidade, trabalhou bastante pra separar cada um desses conceitos. Platão, por exemplo, iguala apenas a bondade a Deus, tornando o Verdadeiro e o Belo como derivados da Bondade, não pertencendo ao mesmo grupo. A Filosofia Moderna mirou também na Beleza, dizendo que ela pode existir por si só pra dissociá-la da Bondade e da Verdade, gerando um efeito tragicômico.

Dessa concepção de Beleza da Filosofia Moderna, logo movimentos artísticos capitaneados por filósofos começaram, como o l'art pour l'art. Com a Beleza não necessitando mais ser Verdadeira ou Boa, ela precisava ser outra coisa, e núcleos ideológicos (não mais filosóficos) se formaram nesses movimentos. A conclusão direta disso na arte é que, pra ser belo, bastava causar uma sensação, ou impressão, na pessoa. O espectro de sensações que o artista poderia provocar aumenta consideravelmente quanto a quando poderiam apenas provocar as sensações que surgem da Verdade da Bondade. Logo o grotesco entrou em cena, que queria gerar um choque no público (com alguma intenção nebulosa que se diz moralizante), e hoje passamos do grotesco, chegando no animalesco, apresentando como “arte” um grupo de pessoas nuas, correndo em círculo e fechando a corrente com um fio-terra coletivo (embora eletricistas tenham discordado do método).

Outro núcleo formado foi o de que a arte deveria protestar contra a ordem vigente, o “status quo”, por meio da arte, e que a beleza (agora “estética”) era uma ferramenta pra impulsionar tal crítica. Isso, é claro, se torna hoje os conglomerados pseudo-artísticos que trabalham por certa pauta secularista traduzida pra linguagem de algum “movimento social” e disfarçada, já que o efeito desejado que contribui diretamente pra pauta deve acontecer silenciosamente e colateralmente com a “vitória” dos ludibriados e quixotescos “movimentos sociais”.

Ainda outro núcleo, revelando a influência direta de Platão, Descartes e qualquer um que injete sistemas gnósticos polidíssimos nas pessoas, resolveu retratar a beleza dessa “realidade verdadeira” que está escondida dentro da “realidade enganadora, duvidosa e má”. Uma beleza incognoscível que não pode ser capturada pela razão. Isso gera coisas como o dadaísmo, ou a arte pré-racional (alguns artistas diziam se auto-hipnotizar pra criar suas obras). Todas com formas disconexas que não revelam sua sintaxe com a Realidade. Esse é justamente o conglomerado mais fiel às ideias filosóficas que criaram esses grupos, já que a Filosofia Modena, separando cirurgicamente a tríade Bonum-Verum-Pulchrum, te leva direto ao que melhor descreve a “classe artística” de hoje: um non-sense niilista e hedonista, que vive de tentar negar a realidade, em uma clara revolta contra ela. Claro, existem artistas geniais em nosso tempo, é óbvio que aqui não falo deles.

Como expliquei nos últimos dois textos aqui no Politz, a Verdade e a Bondade não dependem de opinião alguma: a Verdade sempre será Verdade, a Bondade sempre será Bondade. A Beleza não funciona de forma diferente, já que pertence à tríade. As esculturas de Bernini são belas, mesmo que alguém discorde, por exemplo. As características ontológicas dela são mais ou menos como as das duas companheiras, só que com suas belas particularidades. Por exemplo: matematicamente, algo belo sempre depende de uma proporção que é uma igualdade entre razões, e que se dá nessa fórmula: a / b = c / d ou 1 / 2 = 3 / 6 (isso não quer dizer que a beleza sai da matemática. A Beleza está mais próxima do Motor Imóvel aristotélico, Deus, do que a matemática. A matemática surge depois da tríade Verdade-Bondade-Beleza. Como toda a criação é análoga ao Criador, a matemática é análoga a essa tríade, portanto, a matemática é bela, boa e verdadeira). Fecho aqui essa trilogia de textos passando o conhecimento da existência dessa tríade pra você, mostrando que é muito importante pra certos grupos que essa tríade seja destruída, e deixando claro que a destruição dessa tríade gera todo tipo de bizarrices e maldades. Pra se defender, basta lembrar:

Toda Verdade é Boa e Bela.
Toda Bondade é Bela e Verdadeira.
Toda Beleza é Verdadeira e Boa.

Guarde com carinho.