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Praga que atingiu World of Warcraft em 2005 vira estudo sobre o comportamento humano durante pandemias


Os fãs de World of Warcraft, e qualquer gamer da geração anterior, sabem do curioso incidente do "Sangue Corrompido", que ocorreu em 2005 em decorrência de um bug. Isso culminou em uma praga que matou quase todo mundo do servidor do jogo, e virou até um estudo que, observando como os jogadores se comportaram, pede mudanças nas medidas que são tomadas pelos governos durante o surto de alguma doença. Mas antes, vamos entender o que foi esse incidente.


Para manter o jogo lotado, os donos do jogo faziam eventos constantes com coisas diferentes, incomuns e que davam prêmios. Muitos participavam de tais eventos. Um desses eventos apresentou um chefão novo e único, muito forte, que só poderia ser vencido com centenas de jogadores lutando com ele ao mesmo tempo. Tudo isso aconteceu em uma arena especial pra isso.





O nome desse chefão era Hakkar, e um dos poderes dele era algo como uma magia de área nunca antes vista: o Sangue Corrompido. O jogador que fosse atingido por certa fumaça do Sangue Corrompido começava a ter sua vida drenada. A drenagem, contudo, duraria por certo tempo, e depois sumiria. Mas aí está a questão: ela era transmissível para outros jogadores. Se alguém com Sangue Corrompido encostasse nos outros, passaria Sangue Corrompido pra eles.

E quando o Sangue Corrompido era passado pra outro jogador, o timer começava do 0 pra ele. O evento era só pra jogadores de nível alto. Mas é claro que algo de inesperado e sensacional aconteceu. Não diria que foi um bug, mas com certeza os donos do jogo não estavam esperando por isso.

Alguns dos jogadores com Sangue Corrompido começaram a fugir do local pra evitar a morte certa, mas quando saíram, começaram a infectar as pessoas do lado de fora (o que não era pra acontecer). 
 
Quando as pessoas do lado de fora viam o aviso ao lado da tela: "você perdeu tantos pontos de vida por Sangue Corrompido", sem saber o que era aquilo, se desesperaram, e começaram a procurar em todos os lugares algum meio de se livrarem daquilo (pois não sabiam também que duraria só algum tempo, e no caso dos jogadores de nível muito mais baixo, não haveria tempo o suficiente).

Os infectados começavam a procurar nas lojas do jogo algo que curasse Sangue Corrompido, mas como era algo único de um evento, não existia nada para tal cura. Em pouco tempo o surto tomou muitas pessoas nas áreas populosas do jogo.


Um dos comentários do vídeo que relembra a praga, publicado aqui, diz: "eu era nível 14 quando isso aconteceu. Tinha um cara vestido de padre que dava vida pra todo mundo e mostrava onde ficavam as zonas de quarentena".

Sim, os jogadores se reuniram pra montarem zonas protegidas sem infectados. Outro diz: "eu lembro de quando isso aconteceu. Zonas de quarentena, paramédicos e grupos de caça fora das zonas seguras".  Mais um adendo: quem mudasse de servidor e estivesse infectado continuaria infectado no outro. Foi como uma praga multi-dimensional que acabou sendo uma mega-aventura inesquecível pra quem jogou naquela época.


A situação foi tão doida que dois epidemiologistas da Universidade Tufts, em Massachuets, fizeram um estudo sobre o comportamento humano nesses casos, afinal, no mundo real não temos registros como os de um ambiente digital (pra quem quiser ver o paper completo, está aqui).

Eric Lofgren e Nina Fefferman publicaram o estudo analisando o comportamento humano durante a praga do Sangue Corrompido. O estudo analisou aqueles que se isolaram, e como se isolaram, bem como notou que os principais responsáveis pela praga se espalhar foram três: aqueles que queriam ver o circo pegar fogo e passavam por querer o Sangue Corrompido, aqueles que não ligaram pra situação e acharam que era só um negocinho que logo passaria, e aqueles que quiseram bancar os "médicos" e "entendidos" da situação, indo para as linhas de frente por conta própria.

Estes últimos, ao invés de ajudarem, acabaram contribuindo pra que os infectados pudessem infectar mais pessoas, incluindo eles mesmos. Pelo contrário, os que se juntaram com um plano de isolamento e tratamento organizado, conseguiram muitas curas com poucas infecções.


Podemos entender tais coisas metaforicamente, se quisermos analisar como tais coisas se dão no mundo real. Os "entendidos" da situação, indo para as linhas de frente por conta própria, são os que compartilham informações falsas sobre como se proteger, porque se sentem bem agindo como os gran-conselheiros da situação. "Faça isso" e "faça aquilo", mas sem conhecimento nenhum por trás, só um infográfico que receberam por Whatsapp. O resto é fácil entender.

Pra terminar, um vídeo de alguém tentando fugir da praga Sangue Corrompido. Quem pegava a "doença" ficava com um sangue espirrando dele repetidas vezes: