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Filha é morta pelo cartel mexicano e mãe persegue um por um pra obter vingança

 Fotos ilustrativas

A questão dos conflitos entre cartéis mexicanos é famosa no mundo inteiro, dada a violência extrema com que tais conflitos ocorrem, bem como o modo como tal situação está arraigada no México. Não são só os criminosos que sofrem as mazelas de seus próprios crimes, mas muitas vítimas inocentes acabam sendo feitas.




Uma delas foi Karen Rodriguez, de 20 anos. Ela foi sequestrada e posteriormente morta por membros do cartel Los Zetas, na cidade de San Fernando, no México. Karen estava dirigindo e duas picapes a cercaram, uma de cada lado. Homens armados a renderam e levaram embora.

 

Um retrato de Miriam na parede

 

Eles levaram a moça pra casa dela, onde vivia com a mãe, que estava fora pois trabalhava de babá no Texas durante a semana. Karen foi colocada no chão, amordaçada e amarrada, quando alguém bateu na porta. Era o mecânico que trabalhava pro irmão de Karen, que ficou de ver o carro delas.


Os sequestradores, em pânico, renderam também o homem e levaram os dois embora. Testemunhas viram a coisa toda, mas sem saber exatamente quem eram os sequestradores e pra onde foram. Uns dias depois, uns dos sequestradores veio falar com sua mãe. Os dois se sentaram, e ela implorava que o sequestrador a soltasse. 

 

Luis, filho de Miriam, no local onde os restos mortais de Karen foram encontrados


O bandido disse que não sabia mais onde ela estava, mas que poderia "ajudar a localizá-la" mediante pagamento de 2.000 dólares (no México isso é bastante dinheiro). A mãe e babá pagou a quantia. O homem sumiu e parou de atender o telefone pelo qual eles se comunicavam. Outra pessoa ligou pra Karen dizendo que poderia localizar sua filha por 500 dólares.


Mesmo desconfiando, ela pagou. Nunca retornaram.

 

Miriam Rodriguez, por volta de seus 50 anos, após o luto começou a remoer o que foi feito com sua filha, e tal coisa foi transformando ela em outra pessoa. A mulher foi pra casa de outra filha, Azalea, que relata seu processo de transformação.

 

San Francisco, a cidade onde essa história toda aconteceu


O esquema dessas ligações pedindo quantias pequenas de dólares se repetiu, e ela continuava pagando. Azalea relata que em certa manhã, algumas semanas depois do último pagando, sua mãe acordou e disse em tom pragmático, como se estivesse contando sobre uma chuva, que sabia que Karen nunca voltaria, que provavelmente estava morta, e que não descansaria até que encontrasse todos os envolvidos no caso.


Azalea relata que pouco a pouco a tristeza em sua mãe foi endurecendo, se transformando em determinação, e a esperança, desaparecendo, deu lugar à vingança. Ela diz que exatamente a partir do momento em que sua mãe disse aquilo naquela manhã, se tornou alguém completamente diferente pra sempre.

 

Miriam tinha uma lojinha de roupas de cowboy em uma galeria hoje abandonada, onde Karen a ajudou por muito tempo


Quando Miriam estava conversando com aquele primeiro sequestrador que encontrou, aquele que pediu 2.000 dólares pra "ajudar a localizá-la", ele portava um walkie-talkie, pelo qual provavelmente os outros membros de seu cartel se comunicavam com ele. Alguém falou com ele por ali em certo momento da conversa que tiveram, chamando-o de Sama.


Miriam se lembrou disso, e pra começar a sua busca por vingança, ela teria que começar por Sama. Ela cortou e tingiu o cabelo, falsificou identidades e se passou por pesquisadora, assistente de saúde e funcionária eleitoral, tudo pra conseguir nomes e endereços. 

 

Luis exibe as fotos que sua mãe juntou durante sua investigação. Na foto em destaque está Sama, o primeiro "fio solto" que levou a mãe até os outros envolvidos


A partir de Sama, cuja identidade encontrou, ela foi se aproximando de familiares, e descobrindo cada vez mais sobre os envolvidos. Mas ela não saiu atacando de uma vez que nem doida. Ela decorou os hábitos deles. Ela sabia seus endereços, e nomes e endereços de seus familiares. Ela sabia horários. Ela sabia que um deles estava vendendo flores na ponte Lincoln-Juarez que faz a travessia pro Texas naquele exato momento


Assim que soube, ela colocou um longo casaco por cima de seu pijama, cobriu a cabeleira ruiva (parte de uma de suas identidades) com um boné e enfiou uma pistola na bolsa. Chegando a ponte, começou a vasculhar entre os vários vendedores que ficam ali, procurando por flores. Não estava encontrando, afinal, o homem estava vendendo óculos de sol naquele dia.

 

A ponte Lincoln-Juarez, que vai do México até o Texas. Ao lado as pessoas passam andando, e na parte do México se aglomeram muitos vendedores


Mas ela o reconheceu, pois seguia os seus passos há 1 ano, conhecendo até sua família. Porém, nervosa, chegou perto demais. Ele também a reconheceu, e saiu correndo. Miriam começou a correr por entre a multidão que se aglomera naquela ponte, segurando a pistola dentro da bolsa pra que a arma não caísse no chão.


O homem saía empurrando todos os que estavam em sua frente, e o desejo de vingança empurrava Miriam. Ela, com 56 anos, alcançou o homem, o agarrou pela roupa, o prensou contra a grade, enfiou a pistola nas costas dele e disse: "se você se mexer eu atiro". Miriam o manteve imobilizado por quase uma hora até que a polícia chegasse.

 

Luis com todos os documentos referentes aos casos de desaparecimento na cidade


Sua sede de vingança não era sede de sangue. Embora ela visse isso como vingança, sendo uma mulher boa, mas endurecida pela extrema tristeza, não percebeu que o que buscava era justiça. Deste modo ela fez com que 10 envolvidos no assassinato de sua filha fossem presos. Muitos deles estavam tentando começar uma vida nova. 

 

Um como taxista, outro como protestante, outro como vendedor de carros, outra como babá. Ela usou o mesmo método pra conseguir pegar eles, reunindo provas que pudessem mantê-los na prisão.


Faixa pedindo por informações de Luciano Leal Garza, de 14 anos, que foi sequestrado. Pouco tempo depois, seus restos mortais foram encontrados.


Ela ficou famosa pelo México (coisa que não estava em sua intenção), e sabia agora que ela não seria mais a perseguidora, e sim a perseguida, afinal, ninguém fere o cartel sem ser ferido também. Miriam chegou a pedir ao governo por proteção armada. No dia das mães, seu marido assistia TV dentro de casa, quando ouviu os tiros.


Quando saiu, se deparou com Miriam caída no chão, o rosto voltado contra o asfalto, e sua mão na pistola que ficava dentro de sua bolsa. Sua morte causou comoção na cidade inteira, ainda mais pelo dia em que morreu, quem sabe uma piada macabra do cartel Los Zetas. Mas talvez tenha sido um tiro pela culatra.

 

El Jurte, o restaurante onde Miriam se encontrou com Sama e acabou ouvindo o seu nome pelo walkie-talkie


A cidade, extremamente comovida, que antes não ousava reagir, agora se reúne. O filho de Miriam, Luis, de 36 anos, agora lidera um grupo de pessoas unidas à autoridades que buscam sequestrados por cartéis, ou então assassinos de pessoas mortas por estes bandidos. 

 

Se antes a cidade era submissa ao que ocorria, sem nem pensar em reação diante de um governo omisso (e às vezes complacente), agora, após a morte heroica de Miriam, eles vão à luta.

 

Fonte: Folha de SP